Thammy e Natura: a lacração que representa!

Publicado por Julio Cesar Rodrigues em

É notória toda campanha de cancelamento (jargão das redes sociais para criticar algo ou alguém que incomoda de alguma forma para que se deixe de seguir) quando uma marca ousa afrontar os padrões sociais convencionais. O mais recente caso é o da campanha dos dias dos pais deste ano onde o representante é um homem trans para a marca Natura. O modelo escolhido foi Thammy Miranda, filho da icônica Gretchen. Mas o que está por trás desta escolha da marca?

Certamente a ideia não é “lacrar”, mas trazer um representa na configuração atual na sociedade contemporânea onde a diversidade é cada vez mais o maior representante das transformações pelas quais esta sociedade vem passando. Assuntos relacionados a sexualidade sempre foram tabu na história da humanidade e a aceitação do outro sempre foi um desafio, especialmente quando envolve questões que, para muitos, são religiosas e acabam por assumir uma conotação de heresia e ofensa para os que se consideram atingidos por escolha como esta. Onde está o erro?

Não acredito no erro da marca pelo já exposto acima, mas da não aceitação da realidade do contexto atual. Diversas ofensas foram proferidas contra Thammy por não ter a fisiologia masculina natural, ou seja, por não ser um “homem de verdade” trazendo várias discussões sobre o que seria este homem de verdade e também o que seria ser “pai de verdade”.

Discussão social de extrema importância para uma marca que vem despontando na vanguarda do respeito às diferenças e ao meio ambiente. Uma marca que vem dialogando cada vez mais com as rupturas no tecido social da realidade. Mais do que “causar”, a marca propôs reacender uma discussão que parecia estar adormecida num momento bastante delicado e que envolve uma questão bastante interessante envolvendo masculinidade: a pluralidade de masculinidades. Isto mesmo!

É conhecido hoje o termo masculinidades pois representa as diferentes formas de ver e viver a masculinidade que existe em função da origem, contexto social, geração (faixa etária), nível cultural, escolaridade, entre tantas outras variáveis. Trata-se da interseccionalidade influenciando também esta dimensão. Ah, um outro ponto: para muitos homens ser homem é ter virilidade então como poderia um transexual assim ser considerado? Afinal, o que é ser homem? O que é ser masculino?

Em suma, a Natura conseguiu um resultado de bastante sucesso na valoração de suas ações. Resta saber o resultado nas vendas, mas que esta ação trouxe um bem para a marca, acredito que sim. Não acredito que a imagem da marca tenha sido abalada. Pelo contrário. Esta discussão em poucos dias tomou conta das redes sociais movimentando representantes religiosos como o pastor Silas Malafaia comandando uma campanha de cancelamento da marca e do outro lado, influenciadores digitais como Felipe Neto apoiando a marca.

Que venham mais campanhas como esta!


Julio Cesar Rodrigues

Doutor em Psicologia Social e Política pela Universidad John F. Kennedy com tese defendida sobre comportamento do consumidor de marcas e gênero, discutindo sobre masculinidades e narcisismo. Graduado em Administração pela UFRRJ e especialização em Administração de Marketing e Comunicação Empresarial. Veja mais.

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